Fotografia “street” é para ser banal?

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Fotografia “street” é para ser banal?

Na aula de fotografia o aluno pergunta: – “Professor, por que quando se fala em street, a esmagadora maioria das pessoas pensa em fotos de moradores de rua em preto e branco?”. Sem hesitar, o professor responde: – “Isso se chama falta de cultura e referências viciadas. Todas as fotos street preto e branco, contraluz e gente de rua é muita jequice”.

A cena reflete a realidade muitos cursos, alunos e professores espalhados por aí. A verdade é que se criou um grande mito sobre o estilo de fotografia urbana (também conhecida como fotografia de rua, ou, em inglês, street photography), e em bom português cibernético da atualidade, a hashtag é #vocêsEstãoFazendoIssoErrado.

A fotografia urbana teve seus primeiros adeptos na década de 50 com o lançamento do livro “The Americans”, por Robert Frank. Mas foi só em fevereiro de 67, depois de uma polêmica exposição inaugurada no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, que três fotógrafos até então desconhecidos – Diane Arbus, Garry Winogrand e Lee Friedlander – redirecionaram a fotografia documental para fins mais pessoais, passando a relatar menos e conhecer mais a vida e o dia-a-dia das pessoas.

O livro “Tudo sobre fotografia”, de Juliet Hacking e David Campany, publicado pela Editora Sextante, traz um capítulo interessante sobre o tema, com detalhes e muita informação. (Aliás, o livro inteiro é excelente). Nele, conta que outro fotógrafo influenciado por Frank, foi Tod Papageorge, que conheceu e frequentava salões de fotografia com o “trio revelação” e em suas palavras, dizia: “Seguindo o exemplo de Winogrand, passei a entender que fotografias pungentes não necessariamente resultavam da observação de algo raro, impressionante ou estranho… Assim, se antes procurava temas para minhas fotografias, então passei a procurar, bem, nada em especial. Em vez disso, o que fazia era fotografar basicamente tudo, à medida que meus desejos, minha nova compreensão de fotografia e minha intuição me guiavam.”

Contudo, o próprio Winogrand buscava em seus temas algo que fosse representativo, pois acreditava que uma boa imagem trazia consigo um conteúdo dramático, mas isso poderia ser desde uma simples sensação até mesmo uma conturbada situação de conflito político-social. Um dos seus locais favoritos para fotografar era o Zoológico de Nova Iorque, e foi lá, que ele fez uma imagem que definitivamente entrou para a história. Naquela época, como entretenimento, o zoo vestia pequenos chipanzés iguais à bebês e as pessoas podiam segurá-los para tirar retratos. Até aí, nada demais. Mas imaginem uma foto de um homem negro ao lado de uma mulher branca, segurando bebês-chipanzés no colo, em um ano e local onde casamento inter-racial ainda era proibido por lei. Imaginaram? Se não existe “força” nessa imagem, não existe em lugar algum.

Histórica foto de Garry Winogrand, que mostra um casal segurando bebês-chipanzés no Zoológico de Nova Iorque em uma época onde casamento inter-racial ainda era proibido por lei.

O inglês, Tony Ray-Jones, que estudou arte nos Estados Unidos e também sofreu influência dessa mesma turma, quando voltou para a sua terra natal decidiu viajar pelo interior de seu país registrando tudo e todos, sempre procurando mostrar aquilo que em geral os fotógrafos desprezavam: os bastidores da vida real. Ele morreu antes de ver seu trabalho publicado, mas em uma edição póstuma que lhe foi dedicada, suas palavras foram usadas para descrever o fenômeno da fotografia urbana: “A fotografia pode ser um espelho e refletir a vida como ela é, mas também acredito na possibilidade de, como Alice, atravessar um espelho e descobrir outro tipo de mundo com o auxílio da câmera.”

E ai voltamos no ponto inicial desse artigo. O que está nos levando a registrar moradores de rua em preto e branco? O instinto ou a busca pela dramacidade? A ideia de protestar por essa discrepância social através da nossa arte ou a pura incapacidade de reconhecer seu próprio mundo, sua própria rua? A necessidade do registro de uma época que um dia poderá não existir e, assim como a foto de Winogrand, ficar marcada na história? Ou quem sabe pelo simples fato de não ter clara a ideia do que é uma fotografia urbana? Que tal quase todas as alternativas juntas? Street é para ser banal? #sóQueNão

Então faça como Winogrand, Ray-Jones e Alice. Atravesse o espelho, levante a cabeça, olhe para os lados e abra a sua mente. Repare no “tiozinho” na cafeteria, que mesmo com toda a tecnologia do mundo atual, ainda toma o seu café com aquele jornal gigante aberto. Mostre as diferenças na arquitetura de um mundo que une o antigo e o moderno. Procure a simetria. Vá as estações de metrô e documente sentimentos. Nosso dia a dia está repletos de cenas interessantes e não apenas miséria, fome e tristeza. Mostre isso também se for o caso, mas tenha um objetivo claro. Critique. Brinque com velocidades. Retrate o frio, a pressa, a folga, o cheio e o beijo. Clique a moda, as roupas e os pés. Enfim, documente o mundo como ele realmente é, mas com seu toque artístico, seu recorte do todo. Mostre um pouco do que nós verdadeiramente sentimos. Levante a cabeça, gire 360º e surpreenda-se com o seu próprio dia-a-dia.

Em tempo

  • Para ilustrar esse artigo, usei a foto “Vendedor de Sorriso” do amigo (e integrante do CineStudio) Lucas Hallel, que dentre vários estilos, produz fotografia street em sua verdadeira essência. Muito obrigado Lucas!
  • O diálogo que abre esse texto foi real e o professor é um conhecido e renomado profissional da fotografia. Seria bem interessante se ele chegasse a ler esse artigo (cujo tema foi estimulado por ele há cerca de 2 anos) e reconhecesse suas palavras. Quem sabe, né?! =)
By |2018-12-19T23:04:00+00:00outubro 7th, 2015|Artigos e Tutoriais, Fotografia|0 Comments

About the Author:

Graduado em fotografia pela Universidade FUMEC (2015), Bruno do Val é nascido em Santos (SP) mas escolheu Belo Horizonte como seu lar desde 2007. Iniciou na fotografia em 2010 e seus estilos preferidos são fotografia de natureza / paisagens e artístico autoral. (www.brunodoval.com.br)

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